• Vera Cristina

Um corpo criptobiótico (ou, O movimento engasgado)

Tenho um texto atravessado na garganta.

E ele não sai, mesmo que eu tussa, mesmo que eu grite.


Percebo que tem muita coisa parada dentro do meu corpo— gestos, sentimentos, ideias que não se desenvolveram, como fetos não abortados que continuam em um útero e se mumificam ou entram em criptobiose (definição: estado de latência que pode ser presenciado em alguns animais, quando se encontram em condições adversas do meio-ambiente)


Foto: Tardigrada, animal vivo (fonte: Reinoanimalia_fandom, by Noeliria123)


Foto: Tardigrada, animal em criptobiose (fonte: 3bp_blogspot)



Lá dentro, tem uma bailarina, que se eleva na ponta dos pés e rodopia por um grande salão com seu vestido de tule bordado com pedrinhas brilhantes. Mas tem a moça que dança sapateado igual à Rita junto com o Fred. E uma “Jandira”, que gosta de dançar forró e não se atrapalha com seus pés.

Não sei ao certo quando meus pés se divorciaram do resto do corpo e me impediram de expressar o que sinto através da dança ...

Do mesmo modo, não fui dos esportes e demorei um pouco para aprender a controlar corpo, respiração e mente através do Yoga.

Aparentemente, minhas mãos, meus pulmões e minha voz são meus melhores instrumentos na expressão do meu corpo.

Recentemente, me disseram que mudo a voz, o tom e até mesmo uma certa expressão do corpo quando falo e sou incisiva— alguns diriam até agressiva! Foram armas que a vida me permitiu desenvolver.

Talvez o melhor tenha ficado para as mãos— o bordar, o pintar, o cozinhar e o escrever são ações nas quais percebo meu eu mais profundo se expressando.

E isso pode ser em um pão macio e cheiroso, em um texto curto e divertido ou prato indiano picante e um texto ácido e desafiador.

Estes foram os caminhos que a riqueza que me habita e constitui a tecitura do meu ser encontrou para se manifestar. Até o momento.

Como as placas tectônicas que recobrem o mar de magma do centro da Terra e se movem e se rompem em alguns pontos, as tensões da vida podem aquecer aquele útero, tirando do entorpecimento (ou criptobiose) algum daqueles fetos e pode ser – veja bem, sempre existe uma possibilidade – que ele se desenvolva e uma nova capacidade de expressão surja neste corpo que habito.

E é isso.



Foto: arquivo pessoal



15.iii.2021

#provocaçõesparaescritas – o corpo

@travessiastextuais

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