• Vera Cristina

Um buquê, hoje, não!

Minha mãe gostava muito de flores. E gostava mais ainda quando o papai lhe dava lindos buquês perfumados. Ela ficava quieta, pegava o buquê em um dos braços e, com o outro, abraçava o papai e lhe dava um beijo barulhento (eca!), seguido de um: “não precisava, amor!”. Exceto em um certo dia do ano ... ela tentava disfarçar, agradecia, até dava um beijinho no papai, mas era na bochecha e dizia, apenas: “obrigada, marido”. Papai, aparentemente, nunca se deu conta disso. Mas, para nós, era um sinal. Sinal de alerta máximo! Nada de parabenizá-la, falar como as mulheres são importantes para a nação, para a família, blá, blá, blá. Nada disso!


Conforme crescemos um pouco mais, aprendemos a olhar a folhinha na cozinha e já nos antecipávamos a esse dia fatídico— 8 de março, dia em que papai parabenizava a mamãe por ser mulher. Invariavelmente, no dia seguinte, enquanto tirava as flores da água e as jogava no lixo, mamãe ia resmungando e nós, as meninas e também os meninos da casa, íamos sendo ‘doutrinados’ sobre o porquê daquela raiva:

- Tirar o próprio prato da mesa, não tira, mas traz estas “lindas” flores! — e, puff, lá se ia um tanto de rosas para o lixo.

- Larga os sapatos, as meias usadas e a gravata na sala ... ah, mas me dá rosas!! — e, puff, puff, mais algumas rosas, agora já sendo despetaladas, seguiam o triste destino das outras.

- Come filé mignon enquanto nós, o restante da família, mastigamos coxão duro — “sou eu que pago por esta b... e trabalho para ter isto, vocês comam o que é possível!” — e lá se iam as florzinhas que preenchiam o buquê ter o mesmo destino das outrora nobres rosas ...


Mamãe depois desse desabafo, sentava-se no banco embaixo da amoreira e olhava para o céu, talvez pedindo alguma ajuda de alguma santa, santo, deus ou deusa.

A gente se sentava ao seu lado, a seus pés e nos enrolávamos em suas pernas, a abraçávamos pela cintura e lembrávamos como ela era boa mãe, não, excelente mãe e dona-de-casa! Mas, ela dizia que podia, sabia e queria ser mais! Ela gostava de tudo aquilo e também gostava do papai (ufa!), mas aquele modo antiquado, já naquela época, dele ser e exercer sua masculinidade (essa parte era um pouco confusa para nós, na época) não era algo fácil de tolerar e conviver.

Foi só quando mamãe ficou muito doente e precisou ficar um longo tempo no hospital e papai se afastou do escritório para cuidar de nós, que as coisas começaram a melhorar. Ele viu na pele como mamãe trabalhava duro e precisou de um tempo até aceitar sentar-se à sombra das árvores nas tardes quentes. Nesses dias, ele aproveitou para ler os cadernos de mamãe. Talvez isso tenha ajudado na sua transformação, lenta e sofrida, para um homem mais empático, generoso e disposto a se abrir para um mundo mais igualitário entre homens e mulheres. Eles ainda estão juntos e sou feliz que mamãe não tenha desistido tão facilmente dele, mas sei que muitos outros não conseguiram fazer essa transição. E até que isso aconteça, vou te dar um conselho amigo: não me dê flores no 8 de março, me ofereça suas atitudes não machistas nos outros 364 dias do ano!


- 07.iii.2021 – e esse foi meu “esquenta” para amanhã!



Foto: buquê de rosas (fonte: Unsplash, by Zen Zeee)


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