• Vera Cristina

Foi um rio que passou em minha vida, lárálá ...

Algumas pessoas me falam: escreva mais, não pare de escrever, seus textos são lindos e me inspiram. Mas será que seriam tão receptivas se eu escrevesse sobre esse outro rio, subterrâneo, que corre em mim? Que cheira como o esgoto do qual nos afastamos e não queremos saber nada?


Estes dias, ouvi uma poesia, sim, o autor leu um de seus poemas, que dizia algo como “existe um rio embaixo deste grande rio aqui”*. Fiquei observando como essa frase ressoou em mim. Há tempo sentia essas águas correndo abaixo das minhas artérias e veias, água marrom, habitada por seres gosmentos, lamacenta e mal cheirosa. Queria me aproximar de sua margem, olhar dentro, tocá-la sem medo ou nojo. Teria coragem? O que veria ao fazê-lo? E se escrevesse sobre isso, as pessoas iriam gostar? Gostar do texto ... gostar de mim? Ainda preciso disso, dessa aprovação, implícita ou explícita? Onde está minha capacidade de olhar-me e saber-me inteira, sem julgamentos, sem dedos apontados, como aquela famosa atriz, tão bonita e que agora, velha, atua sem maquiagem e transmite tanta força em sua atuação? As torpezas, os desejos, a palavra crua, o cabelo desgrenhado, a pele seca, sulcada de rugas, o deserto do Atacama em nossa vida.

Eu não moro em uma palafita à beira do mangue, em um cômodo apertado, com mais 7 pessoas da família.

Eu posso ir até a beira daquele rio-esgoto e olhar tudo, respirar aquele bodum e depois voltar para a minha casa murada, em um condomínio fechado, tomar banho quente, vestir uma roupa limpa e bem passada, abrir a geladeira e degustar uma boa refeição. Literal e poeticamente. Tenho boas e felizes lembranças para me aquecerem e alimentarem. Tenho consciência que não é assim para todas e todos. E eu sou muito grata ao Universo por isso que tenho.

Ainda assim ...

Tem um rio correndo embaixo desse grande rio da minha vida e preciso olhar para ele. Não basta mais abrir potes guardados em um armário, no quarto secreto do quintal. Preciso usar minha pequena enxada, cavocar nesse quintal e deixar que aquelas águas, pútridas, subam à superfície para receberem o oxigênio da conscientização e do olhar neutro. Apesar da ferramenta, só a gentileza conosco pode permitir isso.

Não é contraditório, mas a minha palavra para este ano é suavidade: comigo, com os outros, com a vida e com todos os rios que me perpassam.

Talvez eu precise entrar nesse rio, mas tenho aqui ao meu lado um escafandro para usar. O que verei?

Se quiser, sente-se aqui ao meu lado e respire fundo.


09.i.2021


* o autor chama-se Lucão e tem página no Instagram https://www.instagram.com/lucaoescritor/

e o poema é "Debaixo daquele rio existe um outro rio" https://www.facebook.com/watch/?v=1744536235597753


Fotos: Ribeirão (fonte: Villa_alfa_Minas); rio Tietê (Ana Carolina, fonte: Isto É); escafandro (fonte: Evidive).

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