• Vera Cristina

#dia 21 - A lembrança de um dia em que fui feliz de verdade

Talvez poucas pessoas não gostem de viajar. Eu não sou uma delas, até me chamam de Vera rodinhas! Não tenho qualquer problema em fazer e desfazer malas, viajar de ônibus, carro ou avião. Com avião é um amor contraditório porque tenho medo de que ele caia, tremo durante as turbulências, mas adoro ver tudo lá de cima e, por isso, disputo sempre o lugar à janela.

Dito isto, fica fácil explicar por que aqueles 15 dias de dezembro de 2013, quando visitei a China, foram escolhidos como uma lembrança de quando fui feliz de verdade. Nem mesmo as várias e pequenas chateações, sempre presentes em viagens em grupo e, mais ainda, grupo de família, conseguem tirar esse título dessa viagem.

Meu marido e eu não somos Pedro Ernesto & Amelinha, mas gosto de ter tudo planejado, até para poder sair do roteiro quando descobrimos coisa melhor para fazer.

Hoje em dia, ao pronunciar “China” as pessoas quase de imediato desandam a falar mal do país, do “vírus chinês”, das várias teorias da conspiração recebidas em diversos grupos de zapzap. Para mim, essa palavra trás tantas lembranças boas— o vento frio na Praça da Paz Celestial, que não tirou nossa paz, o deslumbramento no Palácio Proibido, a serenidade nos vários templos budistas, xintoístas e outros istas ...

Nada, para mim, supera a viagem que fizemos para o sul, de trem noturno. Que aventura incrível! Descobrir como comprar os bilhetes, conseguir na internet um site que ensina o quê significa cada ideograma no bilhete—plataforma, vagão e a cama; fazer reserva em hotéis— nesse caso, como paramos em uma cidade muito antiga, fiz questão de escolher um hotel tradicional, e por aí foi ... Deslumbramento, superação das barreiras linguísticas e culturais, e ... alegrias!

Havia muitos anos eu tinha um pano de prato que deixava sobre o meu fogão, com imagens dos guerreiros de terracota de Xi’an. Era um presente de uma amiga querida, madrinha da minha filha. Um presente tão simples—um pano de prato— e que foi como um portal para que eu desejasse ir àquele lugar, ver com os meus olhos aquelas maravilhas. E, assim, foi natural, para mim, incluir aquela cidade dos guerreiros de terracota como o ápice da nossa viagem à China. As muralhas, os palácios, templos tudo lindo, mas eu mirava-os e, ao longe, via o trem e o local das escavações.

Não conseguimos chegar pertinho dos guerreiros. Não como estou agora da face brava do meu gato me chamando para colocar sua ração, puxando de quando em quando o meu lápis com sua pata de garras estendidas. Não. Foi de longe, mas foi tão forte, ver como em um filme de ficção, os guerreiros saírem do pano de prato na tampa do fogão e se materializarem à minha frente, 15-20 metros, de modo que eu pudesse soltar aquele ar preso no fundo dos meus pulmões por tanto tempo: uffaaa! Que in-crí-vel! Que lindos! Impressionante!

Depois daquela experiência, caminhar com as malas pelas ruas de Xi’an para não perdermos o trem por conta do horário de rush, foi muito fácil, assim como fazer toda a viagem de volta, no trem, sendo observados como seres exóticos pelas nossas companheiras de compartimento.

Por tudo isso, a China é, para mim, um repositório de boas lembranças, que posso desfrutar na minha casa, nestes tristes tempos de isolamento social. Nem ouse me falar que o vírus é chinês!

21.vii.2020 – à noite


Fotos: pano de prato e gato (arquivo pessoal)



Fotos: Museu do exército de terracota e detalhe da cabeça de guerreiro em Xi'An, China (fonte: Wikipedia)



Fotos: passagem de trem e cabine de trem na China (fonte: guiamundoafora.com)

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