• Vera Cristina

#dia 15 - A última vez que sai sem me preocupar

O grande terreno vazio ficava perto. Em frente à casa dos meus avós, no Parque Novo Mundo. Ir até lá, aos 6 anos, era ótimo. Atravessava a avenida, vazia de carros e pessoas naquele início de ocupação do bairro, subia o pequeno barranco e lá estava ele— aquele enorme campo de futebol, de terra, cercado de mato. Para mim, era como explorar o Parque Kruger, na África do Sul, mas sem leões à espreita. Adorava simplesmente andar, observar plantas e pequenos seres, olhar o céu e as nuvens, colher flores de grama, construindo um enorme buquê para, logo depois, desmanchar cada flor subindo meus dedos ao longo do ramo para soprar as florezinhas e vê-las voar sem destino, como eu.

A mudança para o bairro de Pinheiros, aos 9 anos, mudou a paisagem, mas não o hábito de andarilha observadora do entorno. A rua movimentada, cheia de pessoas e lojas ou o cemitério, com seus túmulos com estátuas, flores murchas, frases saudosas e estórias de almas milagrosas e fantasmas.

Mas eis que o corpo muda, outras formas surgem, o mês se divide em períodos diferentes e passamos, nós mulheres, a precisar observar o entorno, temer o transeunte que vem em nossa direção e observar a roupa antes de sair.

A última vez que sai sem me preocupar nem lembro quando foi, mas já havia essa pandemia. Essa, de considerar mulheres como disponíveis, descartáveis e sem valor, vontade ou direitos básicos.



Fotos: gramado florido (fonte: Pixabay, Gregory Loyko); garota com short (fonte: Pixabay, 4495755_960_720)

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