• Vera Cristina

Da Antártida ao Taiti

Dizem que quando nasce uma criança, nasce uma mãe. E que filhos não vêm com manual de instruções. Penso que é assim mesmo!


É como viajar de avião até a Antártida e ser deixada lá, de paraquedas, torcendo para cair bem próxima a uma das estações de estudo. Algumas mães caem na neve, sem aqueles sapatos especiais, que parecem raquetes de tênis, sem uma bússola, ou qualquer outra preparação. Outras chegam lá em botes, com vários acompanhantes, têm palestras que abordam todos os pontos para sobreviver bem no continente gelado. Mas todas nós vamos passar por momentos de felizes descobertas, terror absoluto, incapacidade de resposta e grandes aprendizados. No mesmo dia, ou ao longo da vida da maternagem.


E chega o dia em que nossa “foquinha”, “leão-marinho” ou “pinguinzinho” irá deixar a Antártida e permitir que voltemos para nosso antigo habitat, o Brasil tropical! Ficamos felizes, mas continuamos ansiosas pelo desempenho no mundo de nossa “cria”.


E quando tudo parece calmo, somos abduzidas por um drone, que nos leva até o Taiti. Estou falando de quando nos tornamos avó! Veja só, saímos da Antártida e chegamos no Taiti! Muito melhor, dirão vocês. E é verdade. Mas também é certo que o Taiti não é aqui. Assim como também não era a Antártida. O ponto onde quero chegar é que, mesmo para sermos avós, precisamos nos inteirar da cultura taitiana para não cometermos gafes. Pense nisso: você é convidada para uma festa de casamento no Taiti; deve levar presente? De qual valor? Leva na festa ou manda entregar? Espera o casal abrir o presente na sua frente? Tantas perguntas! Mas ser avó é mais fácil, dirão alguns. Ahã! Vai ver na maternidade, pega no colo e vai dando conselhos? Ou pergunta antes se tudo bem ir? Fica na casa da filha (meu caso, mais fácil) ou da nora (jura que vai ser você, a sogra, a palpitar lá?) por alguns dias?


Me peguei divagando sobre essas coisas porque hoje, há 15 anos, fiz minha aterrisagem na quente e acolhedora ilha do Taiti. E ver aquele bebezinho fofinho, de olhos de jabuticaba, aninhado no colo da minha, até então, filhinha, mudou minha vida para sempre. Netos são imãs que grudam na nossa bússola da vida e mudam decisões antes fáceis. Fiz muitas viagens para vê-los mais vezes, transferi de campus para ficar perto deles (e do marido e filhas, também!), me questionei como mãe e avó para ajudá-los a serem pessoas completas, íntegras e felizes. Precisei aprender a me conter para não atrapalhar minhas filhas e genros na criação que eles escolheram para meus netos. Me decidi a ser mais solta, espontânea e criativa para encontrar meu lugar de avó na vida de cada um deles. E isso tem sido ótimo.

Por isso, posso dizer que quando nasce uma criança, nasce também uma avó. E sou grata à vida por essa doce possibilidade de existência.

27.xii.2020


Foto: Antártida (por Paul Carroll); fonte: Unsplash.


Foto: Taiti (por Vitaly Sacred); fonte: Unsplash.

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