• Vera Cristina

Capítulo 3: O Pote imponente


Fotos de potes antigos de ingredientes (turbosquid)


Antigo símbolo africano Adinkra (theafricangourmet)


Neste mês de outubro, estou me dedicando ao meu armário de ingredientes para bruxas. Os potes estão empilhados com cuidado, mas alguns parecem ter vida própria. Talvez seja isso mesmo, considerando o conteúdo da maior parte deles.

Eu havia manejado meu pote de medo com destreza. Havia percebido o que escapara, talvez por um vão da tampa, por gases, ou algo assim.

Tudo isso desenvolveu um sentimento forte em mim. Me olhei no espelho, pensando em como eu ainda era uma ótima bruxa. Eu sabia que todo o meu conhecimento esotérico tinha ajudado e isso fez me sentir empoderada (ótima palavra e, além de tudo, bem moderna!).

E, assim, fui até o meu quarto escondido no quintal para olhar os ingredientes e descobrir sobre qual falar. Me sentia uma expert em auto observação. Até o momento em que abri o armário. Parece que outubro vai ser o mês das surpresas ... desagradáveis.

Um pote grande, com etiqueta dourada e fecho de arame, como aqueles de conservas antigas, estava semiaberto e o conteúdo quase no final. Como ele foi se abrir? Será que algum duende estava brincando comigo e tentando me mostrar que essa jornada não é tão fácil assim?

Talvez você já saiba o que havia naquele pote tão imponente. Sim, a arrogância! Ah, que tolinha eu fui, me deixando levar por algo tão primário no desenvolvimento profissional de uma bruxa. Minha professora de encantamentos e poções sempre dizia: “Não se julguem espertas ou sabidas, esse é o primeiro passo para o desastre, pois serão tomadas pela arrogância ou a vaidade e, em qualquer caso, irão cometer erros”.

Ao longo dos meus muitos anos de vida, aprendi muitas coisas a meu respeito. Uma delas é que tenho muitas qualidades e consigo utilizá-las para não só desempenhar bem minhas tarefas na vida, mas também ajudar outras pessoas em suas jornadas. No meu caminho, perdi um pouco da dureza com que costumava julgar minhas ações e capacidades e, por extensão, aquelas das pessoas ao meu redor, mas essa dureza é conteúdo de outro pote e, portanto, outra história.

Neste caso, ter deixado me envolver pela arrogância trouxe um gosto amargo de decepção e fracasso. Olhei com atenção as prateleiras, já sentindo que outros vidros estavam com a tampa frouxa. Parece que abrir um de certa forma destrava a tampa de outros; talvez fosse o calor horrível dos últimos dias. E assim, fui apertando as tampas de vários deles e me lembrando de quando enchi o meu pote da arrogância seguindo as instruções da profa. Matilda, de Ingredientes Mágicos. Sentávamos em nossos lugares e buscávamos na memória as ocasiões em que determinado sentimento surgiu em nós. Nesse momento, colocávamos nossa varinha mágica no lado da cabeça e retirávamos o sentimento como uma gosma brilhante e o transferíamos para um pote, vedando-o logo em seguida.

A arrogância foi coletada em vários momentos. Lá na infância, quando minhas notas eram muito melhores do que aquelas do meu irmão um pouco mais velho; isso fazia me sentir melhor que ele, embora provocasse também alguns safanões da parte dele, quando eu exibia o boletim na sua frente! Olhando retrospectivamente, vejo que quase todo o pote foi coletado em situações de vantagem acadêmica, graças à minha inteligência e gosto pelos estudos: entrar em uma boa universidade, concluir o curso, conseguir os títulos de Mestre e Doutora ... O pior foi lembrar que o pote ficou bem cheio quando eu me interessei por assuntos ligados à espiritualidade e fui me considerando melhor que outros conhecidos e amigos só por causa disso. Precisei de um tempo, e alguns tombos da vida, para acordar desse torpor e ver que a realidade não era bem assim. Até que essa percepção humilde e libertadora venha, somos escravos desse tipo de sentimento que nos aliena do mundo.

Hoje ainda caio nessa cilada, mas outras características que desenvolvi me ajudam a perceber o êngodo e, às vezes mais ou menos rápido, colocar esse ingrediente tóxico de volta ao seu lugar no pote lindo, imponente, no alto do meu armário.


Foto: pote (pontfrio), escrita japonesa para arrogância (japanesewordswriting )

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