• Vera Cristina

#Capítulo 3 – O pai de Agosto

Como vocês já sabem, Agosto chegou em nossa casa por uma espécie diferente de cegonha: um cachorrinho. Minha filha e eu desconfiávamos que ele tinha vindo de uns vizinhos que tinham gatos, mas nunca pudemos comprovar nossas suspeitas. Por conta disso, Agosto nunca conheceu ou conviveu com seu pai; certamente, passou um curto período com sua mãe, mas assim que deixou de mamar, foi entregue à sua própria sorte.

E nestes dias sombrios e estranhos deste agosto agourento de 2020 e sua pandemia, penso nos outros Agostos que também não conhecem seus pais. Mais de 5 milhões de pessoas no Brasil. São muitos Agostos desgostosos de suas vidas, sem resposta ao coleguinha curioso, e sem malícia, da escola, que pergunta:” meu pai é o Joselino da farmácia, e o seu?” ou “meu pai tem o nome do pai dele, por isso eu sou o Tonho Neto; como o seu pai se chama?”. E os olhos se perdem naquela imensidão à frente, buscando uma resposta que coloque fim àquela tristeza.

Mas existem os pais de agosto, assim mesmo, sem A maiúsculo. São os pais-de-vez-em-quando, do final-de-semana-se-não-estiver-ocupado, do no-outro-domingo-vou-te-ver e que só aparecem de vez em quando e só raramente deixam alguma ajuda financeira para a criança, apesar de ela ter o nome dele no seu registro de nascimento. Apoio emocional, então, parece coisa de outro universo. Os pais de agosto gostam dos presentinhos que os filhos preparam na escola especialmente para eles – tiram foto, postam em alguma mídia social e guardam em algum fundo de armário.

É por isso que gosto dos pais de janeiro, junho, setembro, outros meses ... eles, quase sempre, buscam um reconhecimento com base em um relacionamento verdadeiro; que envolve entrega, confiança e amor.

Assim como Agosto, quem não tem um pai próximo, precisa ter um substituto. Agosto tem um pai humano. Que os outros filhos sem pai possam encontrar uma figura paterna positiva para acalmar seus corações; pode ser qualquer um, de qualquer dos outros onze meses. Agosto segue tranquilo, em cima daquela barriga macia, apesar do início de vida tumultuado.



Foto do arquivo pessoal



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