• Vera Cristina

Capítulo 2: O PRIMEIRO POTE

Eu apenas iniciei minha observação do meu armário de ingredientes para bruxas, dentro do meu quarto escondido, e um deles praticamente saltou de lá de dentro! Abri a portinha e ele caiu nas minhas mãos, quase indo ao chão e se quebrando. Não sei se estava muito na borda da prateleira ou se, naturalmente, é ele que aparece quando abrimos esse armário.

Segurei o vidro nas mãos com força. Não queria que se quebrasse e espalhasse seu conteúdo por todo o quartinho ou, mesmo, aproveitasse a porta aberta e ocupasse toda a casa. Senti medo que se quebrasse. Senti medo que seu conteúdo invadisse minha vida. Olhei o rótulo. E ri! Que coisa incrível! Senti medo que o medo invadisse minha vida. Como assim? Então, ele JÁ tinha invadido. Eu me perguntei se seria possível (e saudável) tirar todo o medo da nossa existência. Minha opinião é que, assim como vários outros “ingredientes” daquele armário, o medo nos protege na vida. Um pouco de medo—talvez aí possa ser chamado de cautela, seu irmão gêmeo— nos ajuda a olhar para os lados antes de atravessar a rua, esperar o vapor sair antes de abrir a tampa da panela de pressão, não mudar para a casa do crush ou namorado apenas uma semana depois de conhecê-lo ou ficar junto pela primeira vez! E a lista é longa.

Mas ele pode nos paralisar e impedir que tenhamos atitudes racionais na vida. Algumas pessoas têm tanto medo de morrer em um acidente aéreo que, mesmo quando isso era possível antes da pandemia, não visitavam alguém querido porque morava muito longe, ou não participava de um congresso em sua área de atuação porque, nesses casos, só indo de avião – ou navio, meudeus e se uma onda gigante virar o barco ou se bater em um iceberg, como no Titanic? Esse foi um dos medos que precisei enfrentar, pelo menos agora consigo viajar de avião e me divertir, mesmo com medo. Às vezes temos medo de falar outro idioma e parecermos ridículos ou falarmos bobagens, como os gringos aqui que insistem em pedir “o caipirrinha”, por exemplo.



Fotos: potes (etsy.com/listing/573313171/dollhouse-size-20-bottles-of-witchs), vista de avião e potes de feijões (arquivo pessoal)


Com o pote do medo nas mãos, sentada na poltrona ao lado da minha estante de livros de magia, natureza e culinária, procuro me lembrar de como ele age em mim. E vejo que tanto me protegeu quando criança e adolescente, como me paralizou na minha vida adulta. Esse poder só diminuiu quando resolvi olhar para ele de frente. Nesse momento, ele diminui, fica do tamanho de feijões e podemos colocá-lo no pote e guardá-lo no armário. Como cientista, pensei se esses “feijões” não liberariam gases, que poderiam sair do pote, do armário, do quarto e serem inalados, despertando em mim o medo do pote quebrar, por exemplo. É uma possibilidade. Nesse caso, preciso ir até onde ele fica quardado, pegá-lo nas mãos, olhar para ele, reconhecer que me ajuda quando uso apenas alguns grãos, mas que não devo usar o pote inteiro ou deixá-lo destampado. Como acontece com feijões expostos ao tempo, o medo pode ser atacado por carunchos que o transformam em paranoia, ou outros sentimentos irracionais e arrebatadores. Se você vir algum desses carunchos, voando ou andando, não hesite em capturá-los e guardá-los no pote apropriado. São ingredientes ótimos e indispensáveis em alguns feitiços paralizantes!

E você, de que tem medo? O que te paraliza e te impede de olhar quem você é? Será que seu pote não está aberto, ou pior, no armário da cozinha? Corre lá para verificar!

1 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo